A luta antirracista se renova a cada passo de resistência. No estado do Rio Grande do Sul, a trajetória de Geraldino Canhanga “o Kanhanga” se transforma em sinônimo de determinação negra e esperança. Como amigo e irmão, não posso deixar de enaltecer a força de um homem que passou do rap ao ativismo, ressignificando sua própria história para inspirar centenas de imigrantes e para resgatar as raízes de um povo historicamente marginalizado.
Nascido em Lobito, Angola, Kanhanga chegou a Porto Alegre com uma mala cheia de sonhos e a incerteza de um novo mundo, onde o frio gaúcho lhe apresentava desafios inesperados. Seu relato, aquele de um jovem estudante que recebeu até um casaco emprestado pela universidade, revela como a imigração tão repleta de dificuldades, não diminui a sede por dignidade. Em vez disso, ela acende a lâmpada da resistência; e é com essa luz que Kanhanga ilumina os caminhos dos imigrantes, transformando sua própria experiência de vulnerabilidade em um instrumento de acolhimento e transformação social.
Sua jornada que inicialmente se desenhou nos palcos do hip hop, encontra no ativismo seu verdadeiro chamado. Como rapper que trilhou os versos da liberdade e do empoderamento, o artista percebeu que para mudar o mundo era preciso antes de tudo, reinventar – se. Ao buscar novas perspectivas, tornou-se a voz e o ombro amigo de centenas de imigrantes, trazendo no peito a vivência de quem enfrentou o frio da ausência e exclusão, transformando cada obstáculo em uma alavanca para a verdadeira revolução.
Articulador da comunidade de imigrantes e refugiados do RS, Kanhanga já viabilizou a inserção de mais de 250 imigrantes no mercado de trabalho, prestou auxílio a dezenas de pessoas na regularização de documentos e ofereceu suporte essencial, como cestas básicas e aulas de português direcionadas ao acolhimento linguístico e cultural de núcleos familiares inteiros. Esse caminho, que se descreve em números e sorrisos, ganha ainda mais significado quando percebemos a força coletiva que ele desencadeou. Sua proposta ambiciosa de estruturar, na cidade de Esteio, a primeira Casa dos Imigrantes e Refugiados do RS não é apenas um projeto social: é um manifesto de existência, a afirmação de que nenhum irmão ou irmã africana deve ser excluído dos processos de inclusão, dignidade e desenvolvimento que a humanidade promete e deve garantir a todos.
A partir do resgate das raízes, Kanhanga tornou-se também um curador da memória negra. Nos bastidores e nos holofotes da “Semana da África”, construiu um espaço propício à redescoberta da cultura milenar, por meio de oficinas de tranças, turbantes, demonstrações culinárias com o calulú – prato que carrega a essência de Angola e rodas de conversas que transcendem estereótipos. Em uma sociedade que insiste em apagar as contribuições africanas, esses eventos se erguem como verdadeiros atos revolucionários, relembrando que a negritude é sinônimo de resistência e que a cultura negra é um bem inalienável de todas as nações.
O compromisso do Kanhanga também ecoa em sua obra literária. Com o lançamento do livro “Seja Incrível”, ele propõe um manual de sobrevivência e resistência:
“Ser incrível não é uma condição e sim um estado de espírito, é um estado de Flow que te permite performar em alto nível. É carregar uma atmosfera que te coloca numa posição diferenciada das demais pessoas do teu ciclo de convivência. Ser incrível é ser alguém carregado de marcas e cicatrizes e ainda assim flutuar na plenitude da vida” (contracapa – Seja Incrível – Kanhanga 2024)
Kanhanga deixa sua marca através da iniciativa PRETAgonistas – Mulheres Pretas em Movimento – que transforma espaços culturais em verdadeiros palcos de resistência, exaltando a potência da mulher negra empreendedora e ressignificando as regras do jogo. O projeto encontra – se na Casa de Cultura Mário Quintana, um refúgio e ponto de encontro que reafirma a importância da luta antirracista, construída não apenas pelo ativismo, mas também pela criatividade, pela cultura e pela ousadia de mulheres negras que assumem o protagonismo de suas próprias vidas.
Em um mundo que ainda insiste em impor barreiras e estigmatizar as identidades negras, a história de Kanhanga deixa um legado: cada ato de resistência, cada espaço de acolhimento, é uma semente plantada para um futuro onde a igualdade não é apenas um ideal, mas uma realidade construída por mãos e corações unidos na determinação de transformar sonhos em conquistas.
Para aqueles que buscam se aprofundar nessas narrativas transformadoras, vale a pena explorar os desdobramentos desse movimento cultural e humanitário, seja através da ampliação da Casa dos Imigrantes e Refugiados do RS ou na expansão da Semana da África. Toda luta antirracista é um caminho que se constrói dia após dia e se celebra em cada história de superação, em cada gesto de resistência. É a prova viva de que, quando a cultura negra se ergue, ela não apenas ocupa espaços: ela transforma o mundo.