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“EQUILIBRIVM II”: O encontro do terreiro com o paredão

svgjulho 24, 2026GeralAlex Fernandes

Anitta sempre foi um fenômeno de reinvenção. Mas há algo profundamente diferente em “EQUILIBRIVM II” e não é apenas a mudança de idioma ou a opção por um repertório mais enraizado. É a coragem de uma das maiores artistas pop do planeta dizer, sem meias-palavras: sou macumbeira. E fazer disso o centro pulsante de seu trabalho.

Em um país onde o preconceito contra religiões de matriz africana segue flagrante, há uma audácia bem-vinda em sua maior estrela pop se mostrar, de fato, macumbeira. Esse é o gesto fundador de “EQUILIBRIVM II”: não uma apropriação estética passageira, mas uma imersão profunda em um universo simbólico que a música popular brasileira conhece bem, mas raramente ousa colocar no centro do pop global.

A encruzilhada sonora: quando o funk encontra o candomblé

A faixa de abertura, “Você Já Sabe”, já orienta toda a escuta. Ali, no mesmo espaço, convivem os atabaques sagrados do candomblé e o tamborzão pesado do funk carioca. A faixa é uma homenagem direta a Exu e Pombagira, entidades que há séculos são demonizadas pelo senso comum, mas que na cosmovisão afro-brasileira são forças de comunicação, movimento e transformação.

Anitta opera o que a crítica tem chamado de uma “teogonia de sincretismo” um jogo musical que une bailes e terreiros, funk e samba, capelinhas e templos, Marias e Padilhas. Não é uma colagem superficial. É um diálogo entre mundos que a cultura hegemônica insiste em manter separados: o asfalto e a fé, o paredão de som e o terreiro.

O álbum transita por samba, bossa nova, forró, reggae e funk. Mas o que sustenta essa diversidade é uma espinha dorsal rítmica e espiritual que vem das tradições afro-brasileiras. Há funk, sim, mas funk que respira a mesma energia dos pontos cantados nos terreiros. Há samba, mas samba que carrega a memória dos batuques de caboclo.

O corpo como território de resistência

O videoclipe do projeto, com cerca de 25 minutos de duração, é um manifesto visual que transforma o corpo de Anitta e de seus bailarinos em ponte entre a tradição secular afro-indígena e o contemporâneo globalizado.

A coreografia, assinada por Luciana Xavier, bebe na fonte do maculelê dança de resistência quilombola e nos arquétipos dos orixás. Não é dança pela dança. É uma gramática corporal que narra uma história de sobrevivência, de fé e de poder. A presença de Mayara Lima, rainha de bateria da Paraíso do Tuiuti, não é acidental: seu domínio corporal dialoga com a mesma força ancestral que o projeto procura evocar.

Os alguidares em chamas, o círculo de atabaques, os totens de terracota de Rafa Chaves cada elemento visual é pensado não como adereço, mas como reverência. Como destaca a equipe criativa, a premissa sempre foi o respeito: não se trata apenas de usar a religião como figurino, mas de construir uma narrativa onde a consultoria e a presença de quem vive essa cultura sejam a base de cada frame.

Uma constelação de vozes negras

“EQUILIBRIVM II” não é um monólogo. É um encontro. O álbum reúne 17 faixas com participações que formam uma verdadeira constelação da música preta brasileira: Maria Bethânia e Letícia Fialho em “Ogum Me Rodeia”, Mart’nália em “Feitiço”, MC Tha em “Sem Pressa”, o Grupo Ofá em “Contemplação”, os Brô MC’s e Katú Mirim em “OKE”, Kbrum em “Sal Grosso”.

Não é uma lista de convidados. É um reconhecimento de que a música preta brasileira é um território plural, que vai do samba de terreiro ao rap indígena, do reggae ao funk. Ao estender o tapete para esses artistas, Anitta não está apenas diversificando seu som está afirmando que sua jornada não é solitária, mas coletiva.

“EQUILIBRIVM II”, de Anitta, me impactou pela ousadia e pela estética refinada. Eu sinto que a artista escolheu um caminho que não é o mais fácil: em vez de repetir fórmulas de sucesso, ela mergulhou em uma sonoridade experimental, marcada por batidas eletrônicas minimalistas e uma atmosfera quase ritualística.

O resultado é original e bonito, porque não se limita a agradar o ouvido, mas também provoca o olhar e a mente. Ao assistir ao videoclipe, percebo uma narrativa visual carregada de símbolos, cores e gestos que evocam espiritualidade e equilíbrio, dialogando com tradições ancestrais e ao mesmo tempo projetando uma estética futurista.

Vejo nesse trabalho uma potência de representatividade: uma artista brasileira que se coloca no cenário global sem abrir mão de sua identidade, mostrando que a arte pode ser resistência e reinvenção.

Essa obra confirma que Anitta está em um momento de maturidade artística, capaz de reinventar-se e desafiar padrões, entregando algo que transcende o entretenimento e se afirma como manifesto criativo.

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=LgGZdtEQy24

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